sábado, 27 de julho de 2013

SOCIALISMO

O legado de Kim Jong-Il: fome, repressão e temor nuclear

Coreia do Norte

O legado de Kim Jong-Il: fome, repressão e temor nuclear

Funeral de ditador reuniu milhares de coreanos sob intensa neve


Kim Jong-Il fez com que a Coreia do Norte continue a ser o país mais isolado do mundo em plena era da comunicação (Reuters)

O adjetivo "nuclear" ocupa um lugar fundamental no legado que o ditador Kim Jong-Il - morto no último dia 17 e cujo funeral foi realizado nesta quarta-feira - deixou para seu empobrecido país. Além disso, ele será lembrado por consolidar a péssima política agrária que seu pai implementou e por fazer com que a Coreia do Norte continue a ser o país mais isolado do mundo em plena era da comunicação.

O programa atômico norte-coreano foi iniciado nos anos 60 com apoio de Rússia e China durante o governo do pai de Kim Jong-Il e fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung (1912-1994). Os Estados Unidos criticaram progressivamente o projeto até o ponto de a tensão alcançar níveis muito altos na península nos anos 90, depois que Pyongyang rejeitou, em 1993, a presença de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e abandonou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

Crise - Kim Jong-Il assumiu o poder em um momento crítico, em 1994, pouco depois de seu recém falecido pai ter aceitado se reunir com o então chefe de estado sul-coreano, Kim Young-sam, para diminuir a crescente tensão entre os dois países. Logo após o falecimento de seu pai, o novo ditador deu a impressão de que tomaria medidas para atenuar a crise, já que em outubro de 1994 Coreia do Norte e EUA assinaram um acordo em Genebra que estipulava que Washington e seus aliados forneceriam a Pyongyang reatores nucleares civis em troca da suspensão de seu programa atômico.

No entanto, o passar dos anos revelou que o país, sob comando do novo Kim, sempre conservou a intenção de usar a 'carta nuclear' a seu favor como elemento dissuasório. Tal postura ficou clara com uma nova expulsão, em 2002, dos inspetores da AIEA, no teste nuclear realizado em outubro de 2006 e em inúmeros lançamentos de mísseis que fizeram com que a ONU impusesse severas sanções à nação comunista.

Por isso o regime decidiu abandonar, em 2007, a mesa de negociação de seis lados - da qual participam as duas Coreias, além de Rússia, China, EUA e Japão - para a desnuclearização de Pyongyang. As conversas não foram retomadas desde então.

Fome - No plano alimentício, Kim Jong-Il herdou também as crises de fome crônicas que começaram a golpear o país no fim da era de seu pai no poder. Kim Il-sung pôs em prática um plano de coletivização no campo e industrialização em grande escala que, nos primeiros anos de seu mandato, deu resultados, mas logo mostrou suas limitações - as limitações inerentes a um sistema de planificação comunista.

Kim Jong-Il, por outro lado, será recordado apenas por desflorestar a Coreia do Norte e destroçar o solo pelo mal uso de adubos. Isso, somado às periódicas chuvas torrenciais que ocorrem no no verão local, contribuiu para afundar o sustento agrícola do país.

A política de "o exército primeiro" impulsionada por Kim Jong-Il, que dá prioridade política e orçamentária às Forças Armadas, tirou ainda mais recursos dos trabalhadores rurais na grande crise de fome dos anos 90, na qual se estima que até 2 milhões de norte-coreanos tenham morrido. O desmesurado apoio ao exército, no entanto, demorou para render frutos ao líder, já que ao contrário de seu pai, guerrilheiro que combateu os japoneses quando estes dominavam a península, Kim não tinha formação militar.

Por aparentemente ter tido menos prestígio que seu pai perante as Forças Armadas e inclusive, segundo alguns analistas, em relação aos civis, acredita-se que Kim quis exercer um controle ainda mais severo sobre a população. É difícil estimar o alcance da repressão de Kim Jong-Il devido ao isolamento do regime, embora organizações humanitárias tenham informado que fuzilamentos, penas sem julgamento ou a entrada de milhares de dissidentes em campos de prisioneiros tenham continuado sob seu mandato.

Isolamento - Além disso, Kim Jong-Il também conseguiu isolar ainda mais o seu país. A Coreia do Norte teoricamente inaugurou serviços de internet em 2004 e de telefonia celular no final da década passada, embora seu uso tenha ficado restrito às elites e o controle governamental não permita privacidade alguma.

"O povo não tem acesso aos computadores. No hotel, quando alguém quer enviar uma mensagem pela internet, é preciso escrevê-la em um papel e entregá-la aos responsáveis, que o enviam de uma conta. Se houver resposta, eles a anotam e a levam ao destinatário novamente no papel", afirmou um cidadão espanhol que visitou a Coreia do Norte em 2009.

Enquanto o ditador fez com que 24 milhões de norte-coreanos continuassem fora da realidade do mundo exterior, durante seu mandato Pyongyang obteve aproximações históricas que acabaram com décadas de isolamento diplomático do país, que perdeu boa parte de seus aliados comunistas nos anos 90.

Perfil - Em 2001, a chegada ao poder de George W. Bush, que incluiu a Coreia do Norte em seu "eixo do mal", representou um passo atrás e serviu para o regime justificar uma política externa imprevisível e caprichosa, tal como a personalidade que muitos analistas atribuem a Kim.

Biógrafos do líder norte-coreano utilizavam adjetivos como "inseguro", "tímido" e "irascível" e citavam seu medo de voar (ele se acostumou a viajar a Rússia e China em seu trem particular) como fatores que não contribuíram para melhorar a diplomacia do país asiático.

(Com agência EFE)

Para onde vai Cuba?

Único país socialista das Américas, à deriva no mundo, sem acesso à internet, Cuba fez do turismo sua tábua de salvação, mas isso já não basta. O governo quer implantar uma economia de mercado, demitir 500 mil funcionários e acabar com a Libreta de Abastecimiento, a caderneta que raciona a alimentação subsidiada dos cubanos desde 1962. É hora de mudança na ilha revolucionária

Texto e fotos: Silvia e Heitor Reali, de Havana

O tempo está suspenso em Havana, onde todos aguardam as reformas que serão anunciadas, em abril, no congresso do Partido Comunista. Tudo indica que será referendado o plano do presidente Raúl Castro para reestruturar a economia ineficiente mediante a demissão de 500 mil funcionários públicos, a abertura de pequenos negócios privados em 178 atividades, a abolição da Libreta de Abastecimiento e a libertação de dezenas de prisioneiros políticos. Os ares são de mudança. Há ansiedade na ilha. Uma visita a Cuba revela mais nuvens escuras no horizonte do que mar azul, ritmos caribenhos e sonhos revolucionários.
A Libreta de Abastecimiento em ação numa venda em Havana. Embaixo, os táxis-cocos. Na página oposta, operária de fábrica de charutos.

"Como se pode viver com um salário médio de US$ 20 ao mês (R$ 32)?", dispara Ivone T., uma jovem estudante de medicina, em Havana. Apesar das conquistas socialistas na educação e na saúde públicas, nos últimos anos a penúria cresceu de tal forma que hoje quase toda a renda familiar cubana é dedicada à alimentação racionada pelas cotas mensais de gêneros registradas na Libreta. A caderneta é um documento fundamental da vida cubana, mas as rações mensais só garantem 12 dias de comida. Para complementar a dieta, só há uma saída: "Vire-se." Para Ivone, a ilha caiu na armadilha da esperança fantasiosa. "Acreditamos muito em mañana, no futuro que justificaria os sacrifícios do dia a dia, e só nos restou a sobrevivência", afirma. Uma jornada por onde pulsa o coração de Havana, longe dos roteiros turísticos, revela feridas na alma cubana.

Cereja de bolo
O táxi-coco, uma espécie de lambreta com três rodas e teto, próprio para transportar turistas, é o veículo ideal para percorrer a capital. A viatura roda a 40 quilômetros por hora, permitindo observar os detalhes arquitetônicos, sentir a brisa e o aroma da maresia. É bom ver tudo de perto. Um roteiro alternativo ao turismo oficial poderia começar pela zona tranquila e silenciosa do Parque Metropolitano, no lado oposto à Havana Vieja. Banhada pelo Rio Almendares, a área abriga uma vegetação de hera que sobe pelas árvores, se espalha pelos galhos, criando verdadeiros mantos verdes. É fácil pressentir "entidades" misteriosas no cenário, pois o Parque Metropolitano é o palco de rituais da santeria, a umbanda cubana, cultuadora de Santa Bárbara, São Judas e a Virgem da Caridade do Cobre, a padroeira de Havana (Oxum, nos cultos sincretistas).

Quase toda a renda familiar cubana é gasta com a alimentação racionada pelas cotas de produtos da Libreta de abastecimiento

Daniel C. é motorista de um desses táxis-cocos. Vivaz, inteligente, rápido nas respostas, ao nos aproximarmos dos bairros de Kholy, Miramar e Siboney, onde vivem os militares, os políticos e El Comandante Fidel, avisa de forma categórica: "Não fotografem nada daqui para a frente, senão vamos passar oito horas desagradáveis na polícia." Ao entrarmos no bairro de Vedado, antigo reduto dos cubanos ricos que fugiram ao se deflagrar a revolução, lembramo-nos de uma passagem do livro Memórias da Filha de Fidel, escrito por Alina Castro, a filha ilegítima de El Comandante, hoje dissidente em Miami. Alina conta que havia dólares emparedados em muitas casas, pois os moradores imaginavam voltar assim que o regime caísse. Várias foram demolidas, mas não se encontrou nenhum money.

Sacada de hotel em Havana. Embaixo, um dos inúmeros músicos de rua. Acima, as montanhas de calcário do Vale dos Vinales, o terroir das melhores plantações de fumo do mundo.

Saindo dos bairros chiques o asfalto desaparece e surgem casas simples, com pequenos jardins. Não há cachorros. "A comida não dá nem para nós", ironiza Daniel. Com o anunciado fim da Libreta de Abastecimiento a insegurança aumentou na ilha. Não se sabe como será feita a parca distribuição de alimentos. Sem a Libreta, restam as bancas e mercadinhos com nomes sugestivos como La Fortuna, La Generosa, La Speranza, que quase não têm o que oferecer, e as lojas especiais reservadas aos turistas e a quem paga o peso conversible (igual ao dólar), devidamente abastecidas de produtos importados. Só quem recebe dinheiro de parentes no exterior pode encarar esses gastos, ou quem exerce atividades ilegais. Um quilo de carne de porco custa 27 pesos no mercado privado.

A paisagem continua a mudar e o ar torna-se poluído, tomado pela fumaça de ônibus em estado lastimável. Os raros táxis-cocos que passam pela periferia transitam sob o olhar desconfiadíssimo dos moradores. Aqui, as oficinas mecânicas são capazes de restaurar um Chevrolet 1949 como se fosse uma obra de arte. Daniel para na casa do irmão, que nos prepara um forte, aromático e encorpado café cubano. Percebemos casas em lenta construção, em geral dependentes do dinheiro enviado por familiares na Flórida, ímã dos que preferem enfrentar peripécias no mar, equilibrados em um pneu de trator, chutando tubarões, a ficar na ilha. A propósito, para reconhecer as mudanças positivas em curso, em janeiro o presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, facilitou a licença para qualquer residente enviar remessas trimestrais de US$ 500 a Cuba.

Após um banquete de simpatia e de cultura sem censura, no final da excursão o visitante não deve se surpreender nem se decepcionar se alguém lhe oferecer sem constrangimento "a cereja do bolo". "Qual é?", perguntamos ingenuamente. "Depende. É cara, porque embolso 30%", admite Daniel, sem rodeio. "A escolha é sua: uma bela jovem ou um rapaz sarado. To have fun, entiendes?" Na surpresa se aprende que a "cereja do bolo" não é malandragem, é puro desespero de causa - questão de sobrevivência.

É a quarta vez que visitamos Cuba. Conhecemos seus extremos e paradoxos, da harmonia ao caos. Percorremos a ilha de ponta a ponta, de Vuelta Abajo, no extremo oeste, a Santiago de Cuba, na ponta leste. Em Vuelta vimos o Vale de Vinãles, berço das plantações de tabaco envolvidas pelas mongotes, montanhas calcárias iguais às do Vietnã, que sustentam um solo e uma umidade únicos - o terroir, como dizem os aficionados. Elas contribuem para a excepcional qualidade das folhas responsáveis pelos melhores charutos do mundo. Santiago faz limite com a Sierra Maestra, local de decisivas batalhas da revolução cubana. Conhecemos também a cidade de Santa Clara, onde está o monumento dedicado a Che Guevara.

Os mecânicos cubanos são capazer de restaurar um Chevrolet 1949 como se fosse uma obra de arte. Na página ao lado, acima, a joia barroca da Praça da Catedral, em Havana; abaixo, um pouco da musicalidade dos cubanos.

Já passamos por Sancti Spiritus e Cienfuegos - fundada por franceses - e pela histórica e bela Trinidad. Visitamos Camaguey, Holguin e Matanzas, terra natal da abastada família de Andy Garcia, que emigrou para os EUA e virou astro de cinema. Garcia apareceu em público vestindo uma guayabera, a tradicional camisa cubana de linho, com pregas verticais e quatro bolsos, usada para fora da calça, e converteu-a em peça cult. Mergulhamos entre peixes coloridos de baías transparentes e, por supuesto, regalamo-nos com o legendário rum dos divinos mojitos - a caipirinha cubana feita com limão e hortelã. Na famosa praia de Varadero sentimos a fúria dos furacões que em setembro atormentam a ilha.

Dessa vez, entretanto, há outros tormentos. As feridas estão expostas num passeio a pé por Havana. A escassez de bens de consumo obriga as pessoas, cada vez mais, a importunar os turistas para adquirir jeans, camisetas, tênis, xampus e assim por diante. Cansamos de ser abordados porhttp://www.blogger.com/img/blank.gif alguém "boa-pinta", muy simpático, muy amigo, que oferece charutos puros e rum produzido em fundo de quintal - ou se prostitui. No mercado negro circulam até produtos furtados nos hotéis. Isso sem contar os músicos passando chapéu. "Entonces, usted yá ès cubana", diz Esteban, um desempregado com quem puxamos conversa na Praça do Teatro, "Usted siente y conosce el país mucho más que los cubanos". Não é verdade. Cuba barroca, surreal e miserável é tão vibrante quanto indecifrável.

As ruas de Havana parecem as de Salvador, na Bahia, congeladas em 1950. Abaixo, a vida de rei dos turistas na Praia de Varadero. Na página oposta, os famosos cortiços de Havana, nos quais não há energia elétrica na maior parte do dia.

Vocação natural
Não é de hoje que os turistas afluem. Depois de 1898, quando os EUA apoiaram a independência do país da Espanha, os norte-americanos entraram com os dois pés na ilha e a converteram em seu quintal. Reflexo dessa situação, o beisebol acabou eleito o esporte preferido dos cubanos. Com a revolução de 1959, a elite cubana, proprietária de engenhos e de fábricas de rum, abandonou os palacetes à beira-mar. A revolução restaurou a dignidade do país e abriu as portas para uma multidão que subdividiu quartos, seccionou andares, repartiu sacadas, fechou varandas, emendou "puxadinhos", improvisou paredes e implantou todo tipo de rede de "gatos". Assim sugiram as quarterias, os cortiços que se veem por toda parte em estado lastimável. Democratizaram a miséria, mas não socializaram a riqueza.

Em 1990, depois do fim dos tratados econômicos anulados pelo colapso da ex-União Soviética, Fidel converteu o turismo em tábua de salvação. Há motivos de sobra para a ilha ser uma nova Cancún e muito mais, sobretudo no litoral dos cayos de ensueño, no norte, com suas ilhas e ilhotas coralinas bordejadas por uma areia que parece feita do mais puro alabastro moído. Há também a atração das construções em estilo colonial espanhol que durante séculos foram se "acriolando" até se tornarem cubanas.

Pode-se ler Cuba como uma partitura: uma batida afro mesclada ao flamenco espanhol e à contredance francesa
A arquitetura de Havana Vieja ocupa um lugar de destaque. Realmente, não há nada igual nas Américas. Há números que justificam a afirmação: são 40 quadras com 150 edificações dos séculos 16 e 17, 200 do século 18 e 460 do século 19. Nesse leque não estão incluídos interessantes templos, fortalezas e vilas em estilo liberty.

Em pleno centro histórico ergue-se a Praça da Catedral, datada de 1770, rodeada por palácios como o dos Marqueses de Arcos, do conde Lombillo e dos Marqueses de Águas Claras. A igreja é de uma beleza barroca transbordante. Todo o complexo arquitetônico vem sendo caprichosamente restaurado pela Oficina del Historiador, capitaneada pelo historiador Eusebio Leal, desde 1967. Leal sabe que, além de ser o motor do turismo, a arquitetura é preciosa para a alma de Havana.

Os colonizadores espanhóis construíam palacetes, solares, templos e edifícios públicos com a pedra calicia, um coral retirado do mar. Porosa, ela guarda madrepérolas incrustadas, o que explica o misterioso cintilar das paredes à luz do sol no centro histórico - um efeito singular. Para driblar o calor e a luminosidade, as janelas ganharam vitrais coloridos e os pátios internos, refrescantes fontes. Não à toa que, em 1982, o centro histórico foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Outra peculiaridade, hipnótica, é a música. É impossível não sentir inveja e admiração pela ginga e o requebro das mulheres e homens que rodopiam com o mambo, a rumba, o bolero, o chá-chá-chá, o danzón, a guajira e o guaguancó. Na vitalidade da dança, nas ruas, nos salões, cabarés ou teatros, está uma das essências da cubanidad. Pode-se ler Cuba como se lê uma partitura: uma pulsação da matriz afro, regida pelos tambores de Xangô, mesclada ao flamenco espanhol e à contredance trazida pelos latifundiários franceses, fugidos do Haiti. A música e a dança nutrem a alma do povo, já que o corpo mal se mantém. Elas garantem a alegria de viver e permitem aos cubanos fabricar outra realidade, uma vez que não conseguem conhecer o próprio país.

Sabe usted por que? Porque viajar é um privilégio inacessível. Está reservado aos gringos. A não ser que se trabalhe como guia de viagem, garçom, camareira ou cozinheira. Em todo lugar ouve-se a ladainha: "el cubano no está autorizado... no se puede... no passe..." Parece haver entusiasmo apenas nos empregos dos setores dolarizados da economia. Mas isso não é compartilhado. Faltam possibilidades de desenvolvimento para as cidades do interior e as praias também ganharem com o turismo.

Após 20 anos de reinado absoluto, o turismo não salvou a Revolução e o futuro tornou-se mais sombrio. Como os cubanos receberão as reformas e as demissões em massa num país onde mais de 90% das pessoas são funcionários do Estado? Nem a entrega de terras ociosas, nem as novas propostas ao congresso do PC, ou mesmo a libertação de presos políticos, diminuem as filas em frente às embaixadas para aqueles que se recusam a deixar a vida em compasso de espera. Uma frase da blogueira Yoani Sánchez - que no ano passado foi impedida de vir ao Brasil para o lançamento de seu livro De Cuba, com Carinho - resume tudo: "As reformas de Raúl estão sendo vistas com tanta falta de entusiasmo que não convencem nem os compatriotas a ficar na ilha."

Revista Planeta

Polônia, uma terra de sobreviventes

Por: Giovana Zilli
Publicado em 05/06/2009
(Foto: Giovana Zilli)

Se a Polônia é uma terra de sobreviventes, a cidade portuária de Gdansk é uma boa porta de entrada. A poucos minutos de caminhada da estação de trens há uma praça dedicada ao movimento Solidariedade e aos trabalhadores que morreram em confrontos com a polícia, nos anos 1970. Ali perto, a exposição Estradas para a Liberdade mostra em detalhes o que livros de História não contam.

No centro histórico, a gigantesca Kościół Mariacki (Igreja de Nossa Senhora) resistiu graças às reconstruções do pós-guerra. O relógio astronômico, restaurado, indica hora, mês, ano, fase da lua, signos do zodíaco e o santo do dia, como em 1470. No museu, pinturas e esculturas dividem espaço com fotos devastadoras da Segunda Guerra, retratos fiéis das cinzas das quais o país se reergueu.

Começar uma visita por Gdansk não é comum. É em cidades maiores e mais conhecidas – como a capital Varsóvia e a importante Cracóvia – que as coisas acontecem. Mas há voos lotados e filas de espera que vêm para o bem. Foi assim que cheguei a Gdansk e, de lá, embarquei num trem para Torun, cidade de Nicolau Copérnico. Ali a presença do Rio Vístula – que corta todo o país – é discreta.

O museu Kopernika, a poucos metros da margem, foi a casa onde, em 1473, nasceu o astrônomo, autor da teoria heliocêntrica, segundo a qual a Terra girava em torno do Sol, só publicada após sua morte, em 1543.

Desde tempos medievais, a pequena Torun é também famosa pelos biscoitos de gengibre. No centro antigo, a enorme edificação da prefeitura domina a praça com seus tijolos vermelhos, estátua de Copérnico à frente. De Torun segui para Poznan, uma das cidades mais antigas e coloridas da Polônia, onde todos os dias visitantes reúnem-se em frente ao museu para ver os bodes de lata colidindo a cabeça 12 vezes para anunciar o meio-dia.

Diz a lenda que no dia da inauguração do relógio da torre o cozinheiro deixou queimar a carne do banquete. Então roubou bodes nas vizinhanças para assar, mas eles escaparam e começaram a bater a cabeça na praça. Acabaram por se tornar o centro da festa daquele dia de 1551, virando monumento junto com o relógio.

Poznan é exemplo incrível de reconstrução da cultura polonesa. Seu centro histórico recebeu extrema atenção dos restauradores. Prédios medievais bem-preservados abrigam cafés, bares e restaurantes. Apesar de crescer a popularidade da cerveja, a vodca – pura, como manda o costume, ou com suco de frutas – ainda é preferência nacional.

A base da maioria dos pratos tradicionais é carne vermelha frita ou assada, com muito molho. Entre os favoritos: flackzi (tipo de buchada com vegetais e pimenta), golabki (folhas de repolho enroladas com carne moída) e golonka (pernil de porco com raiz-forte).

Com o ingresso da Polônia na União Europeia, em 2004, o turismo aumentou e ajudou a economia. Mas não o bastante. Atrás de melhores salários, mais de 600 mil polacos haviam deixado o país em direção ao Reino Unido. A ponto de faltar mão-de-obra para as indústrias que começaram a se instalar ali em busca de custos mais baixos de produção.

O governo polonês chegou a fazer campanha nos países britânicos para convencer seus emigrados sobre os novos empregos que estariam sendo gerados. Mas em bares, hotéis ou na construção civil da Inglaterra, Irlanda ou Escócia os poloneses ganhavam cinco vezes mais do que em sua terra.

A volta para casa começou a se intensificar neste ano, devido ao desemprego nos países ricos. Estima-se que mais da metade dos que haviam mudado para o Reino Unido tenha retornado. Mas não sem antes deixar como herança um pouco da sua cultura. Há vestígios dela no revigoramento do catolicismo, em itens incorporados às prateleiras dos supermercados e na súbita admiração pela energia perseverante, típica dos sobreviventes.

País sobreviventeEm 1795, a Polônia foi tomada pelos vizinhos Prússia, Áustria e Rússia. Apesar da resistência de seu povo, armado de foices contra os exércitos, foi dividida entre os invasores. A independência viria em 1918, depois da Primeira Guerra, por pouco tempo. Em 1939, o país foi invadido pelas tropas de Hitler. Quase um quinto de sua população foi dizimado durante a Segunda Guerra.

Até então, a Polônia tinha a maior comunidade judaica da Europa. Após a Guerra, o país passou a compor o bloco liderado pela ex-União Soviética. E seria o primeiro a colocá-lo na berlinda, em 1970, quando a repressão do governo a um protesto de trabalhadores contra a carestia deixou 44 mortos e mais de mil feridos em Gdansk.

O ano novo seguinte começou com uma greve que se espalhou por toda a região norte do país. A pressão foi tanta que os preços baixaram, o Partido Comunista trocou de comando e abriu diálogo com os trabalhadores.

A rejeição dos poloneses ao modelo totalitário stalinista acabaria sendo um dos pontos de partida para a derrocada do regime. Os polacos sempre foram fiéis às suas tradições e aos ideais de liberdade. Hoje o catolicismo é a religião de 90% da população. A Igreja preservou sua forte influência por ter se alinhado à identidade cultural do país.

Não foi à toa que, em 1978, o Vaticano nomeou Karol Wojtyla seu primeiro papa não-italiano em 450 anos. A visita de João Paulo II a sua terra natal no ano seguinte mexeu com a autoestima nacional e serviu de estopim à mobilização que colocaria Gdansk, o eletricista Lech Walesa e o sindicato Solidariedade na mídia mundial.

O inédito movimento não comunista rompeu as fronteiras e as estruturas do regime. Com a queda do Muro de Berlim e o enfraquecimento do comunismo, em 1990 os poloneses foram às urnas pela primeira vez para eleger Walesa. Mas seus cinco anos de governo foram decepcionantes e o Solidariedade perdeu expressão.
Revista Brasil

Os fracassos da Revolução cubana

Fernando Ravsberg
BBC Mundo, Havana - ÁFRICA - dezembro de 2008
Todos os meios de comunicação em Cuba são controlados pelo Partido Comunista
Apesar das promessas iniciais da Revolução, os seus críticos e opositores asseguram que o processo político que começou há 50 anos tem as suas principais carências nas áreas dos direitos civis e políticos da cidadania, na falta de liberdade de organização política, económica, de expressão e de imprensa.
A grande maioria da sociedade civil agrupa-se em organizações controladas pelo governo, que são dirigidas por líderes do Partido Comunista, como os Comités de Defesa da Revolução, a Federação das Mulheres ou a Central dos Trabalhadores de Cuba.
Se é verdade que em Cuba alguns grupos religiosos e os mações gozam de estatuto legal, a posição oficial pode ser tão radical ao ponto do clube de motos Harley Davidson não conseguiu das autoridades o seu reconhecimento legal.
A oposição política é ilegal. Os grupos dissidentes são tolerados mas carecem de protecção jurídica. Qualquer tipo de actividade pública pode ser reprimida e os que insistam em desalinhar podem acabar na cadeia.

Mesmo os comunistas críticos, que procuram mudanças dentro do sistema, não têm espaço para o debate e são oficialmente acusados de promover a divisão e de dar munições aos inimigos da Revolução.

O escritor Lisandro Otero sugeriu há vários anos num artigo que, em Cuba, tudo o que não é obrigatório está proibido. Pode parecer exagerado, mas a verdade é que, para a população, tampouco há muito espaço para debate.

Controlo dos média

Os meios de comunicação são controlados pelo Partido Comunista, que dita a linha editorial de cada jornal, revista, emissora de rádio ou canal de televisão. Por essa razão, as vozes discordantes não são bem-vindas.
A principal tarefa de um jornalista cubano é defender a Revolução"
Juan Marrero, o vice-presidente da União de Jornalistas de Cuba, disse à BBC que a principal tarefa de um jornalista cubano é defender a Revolução e reconheceu que "há temas intocáveis porque podem beneficiar o inimigo".

A imprensa nacional só aborda temas como a prostituição, a delinquência, o racismo, os salários ou a corrupção depois de Fidel ou Raúl Castro terem falado deles publicamente, estabelecendo o que muitos chamam de "linha oficial".

Por essa razão, oficialmente, durante muitos anos as prostitutas não existiram para os jornalistas cubanos. Não se mencionou a corrupção até que Fidel Castro disse que esta "constituía um perigo para a Revolução". E começou-se a falar da existência de drogas quando Fidel Castro as denunciou num discurso.

Da mesma forma, os jornalistas cubanos sempre defenderam que os salários mensais equivalentes a US$15 eram suficientes para viver, até que a 26 de Julho de 2007 Raúl Castro desmentiu esse ponto de vista.

Na área económica a Revolução cubana também não conseguiu muitos êxitos. Meio século depois, é agora oficialmente reconhecida a existência de corrupção, são feitas referências ao facto de os salários serem insuficientes para se viver e as possibilidades de consumo do cidadão são mínimas.

Para além disso, o governo cubano limita a liberdade económica dos cidadãos, impedindo o desenvolvimento do trabalho por conta própria - uma actividade que necessita de uma autorização oficial das autoridades, que não é concedida há mais de uma década.

Erros económicos
Os cubanos querem mais empregos e melhores salários
Não se pode esquecer que os EUA impuseram um embargo em 1962 que custou a Cuba, segundo dados oficiais, quase US$100 mil milhões e afectou todas as áreas económicas, incluindo o turismo, a produção de açúcar e de tabaco e até mesmo a extracção de níquel.

Contudo, os críticos referem que o governo cubano também cometeu erros económicos, como por exemplo quando arrasou todas as árvores de fruta na capital nos anos 60, quando paralisou o país em 1970 para efectuar uma safra de cana-de-açúcar ou quando transferiu a agricultura para fazendas estatais, que se mostraram improdutivas, como o reconhece o próprio Gabinete Nacional de Estatísticas.

Nos anos 80 Cuba deixou de pagar aos seus credores ocidentais e acabou por passar a comprar a países socialistas quase 100% dos seus produtos importados. É que, graças ao então Conselho de Ajuda Mútua Económica, CAME, tinha acesso a créditos e podia trocar vantajosamente os seus produtos exportáveis.

No século XIX, o pai da independência cubana, José Marti, advertiu para a necessidade de se equilibrar o comércio para se assegurar a liberdade. "O povo que quer morrer vende a um único povo, e o que quer salvar-se vende a mais do que um povo. O influxo excessivo de comércio de um país para outro converte-se em influxo político."

José Marti foi um visionário. Cuba não só copiou o modelo político e económico da União Soviética como acabou por ter a maior crise de toda a sua história quando o bloco soviético desapareceu - uma crise que se arrasta aos nossos dias.

Ainda assim, os cubanos têm esperança num futuro melhor

Os êxitos da Revolução cubana

Fernando Ravsberg
BBC Mundo, Havana
BBC ÁFRICA - dezembro de 2008
Educação e saúde pública - cartões postais da Revolução cubana
Os êxitos da Revolução cubana podem ser encontrados na área social, onde a pequena ilha caribenha supera os restantes países latino-americanos e mesmo muitas das nações mais ricas e mais industrializadas.
Muitos coincidem em qualificar o desenvolvimento de uma poderosa rede nacional de assistência social como a maior vitória dos cubanos; essa rede de assistência social serviu para impedir que os 20% dos cubanos mais pobres caísse na miséria extrema.

O estado encarrega-se dessas famílias, entregando-lhes dinheiro extra, cestas alimentares, vestuário e também mobiliário. No caso de deficientes físicos ou mentais, as autoridades cubanas chegam mesmo a pagar um salário para que essas pessoas recebam os cuidados necessários.

Logo no início da Revolução foram tomadas medidas para benefício dos mais pobres. A reforma agrária deu emprego a 100% dos camponeses. Uns receberam terras, outros integraram-se em cooperativas e muitos converteram-se em operários de fazendas estatais.

Foram proibidos os despejos nas cidades, foi decretada uma redução das rendas de casa e foi finalmente feita uma reforma urbana que converteu 85% dos cubanos em proprietários das suas próprias residências, uma realidade que se mantém nos dias de hoje.

Prioridade à infância

Não existem em Cuba meninos de rua. Os órfãos e os filhos de doentes mentais ou de pessoas presas vivem em instituições onde têm garantidos, casa, comida, cuidados médicos e educação - incluindo estudos superiores.
Mas esses não constituem uma excepção, porque 100% das crianças cubanas frequentam a escola, que é efectivamente obrigatória até ao nono ano e gratuita até ao nível universitário. Os livros escolares são igualmente gratuitos.

Em Cuba, a lei obriga os pais a enviar os filhos para a escola. Trata-se de um direito da criança que, se for violado, pode implicar a perda da sua custódia e a tomada de medidas judiciais contra os encarregados de educação.

E ninguém está isento; sessenta mil crianças cubanas com limitações físicas ou psíquicas frequentam escolas especiais em que recebem aulas normais, fisioterapia e cuidados psicológicos, uma combinação que lhes permite desenvolver ao máximo as suas habilidades e possibilidades.

Nessas escolas juntam-se dois dos maiores êxitos da Revolução cubana: a educação e a saúde pública. Esta última desenvolveu um gigantesco sistema nacional que abrange todos os cidadãos sem quaisquer excepções.

O sistema tem quatro níveis: o de médico de família, que vive a poucos quarteirões da casa do paciente; o da clínica do bairro; o do hospital da zona; e o dos institutos especializados. Toda a assistência médica é gratuita, com excepção dos medicamentos - que são subvencionados.

Nada fica de fora do sistema cubano de saúde pública. Desde a mais ligeira dor de cabeça ao tratamento de doenças associadas ao HIV/Sida, passando pelos transplantes de orgãos, cuidados odontológicos e até cirurgia estética.
A esperança de vida dos cubanos é a mais elevada da América Latina
Os resultados são visíveis quando se comparam as estatísticas das Nações Unidas sobre a esperança de vida. Cuba ocupa o terceiro lugar no continente americano, com uma esperança média de vida de 76 anos para os homens e 80 anos para as mulheres.

Em relação à mortalidade infantil, as cifras da ONU mostram que Cuba tem 5 mortos em cada mil nascimentos, algo que, no continente americano, é apenas comparável ao Canadá.

Saúde para todos

Da mesma forma como ninguém morre em Cuba devido a doenças curáveis, muito poucos morrem devido aos efeitos dos ciclones que atravessam aquela ilha todos os anos. A Defesa Civil, criada pela Revolução, é capaz de evacuar milhões de cubanos para lugares seguros.
Há assistência do Estado durante a passagem de ciclones
No ano passado, por exemplo, Cuba foi atingida por três poderosos ciclones, que provocaram danos a meio milhão de casas, destruiram a maior parte das colheitas e derrubaram centenas de torres de alta tensão. Apesar disso, foram registadas apenas 7 mortes.

Antes de 1959, e mesmo

No ano passado, por exemplo, Cuba foi atingida por três poderosos ciclones, que provocaram danos a meio milhão de casas, destruiram a maior parte das colheitas e derrubaram centenas de torres de alta tensão. Apesar disso, foram registadas apenas 7 mortes.

Antes de 1959, e mesmo durante os primeiros anos da Revolução, havia centenas e às vezes mesmo milhares de mortos de cada vez que Cuba fosse atingida por um ciclone. E isso sem contar com as enormes perdas económicas que ocorriam.

Agora a Defesa Civil assume antecipadamente o controlo das áreas por onde se prevê que o ciclone vá passar. Dias antes, as populações locais são evacuadas, os animais protegidos e os alimentos transferidos, evitando-se assim mortes e salvando-se tudo o que seja possível salvar.

E também são muito poucas as vítimas da violência social. Praticamente não há insegurança para os cidadãos. Comparada inclusive com os países mais seguros da região, Cuba é, sem dúvidas, uma das sociedades mais pacíficas do continente americano e mesmo do mundo.

É um acto extraordinário um assalto à mão armada e os roubos com pistolas ou com armas brancas quase que não existem. Os delitos mais comuns são o roubo de fios de ouro, de relógios ou de pastas que, em geral, ocorrem sem ameaças de violência física.

Sem dúvida, a tranquilidade nas ruas tem a ver com a presença constante da polícia. Mas muitos argumentam também que o nível de educação, o acesso à saúde e o controlo da pobreza contribuem de forma determinante para o fraco índice de violência em Cuba.

Cuba - 50 anos de Revolução

Cuba é sinónimo de Revolução. Desde 1 de Janeiro de 1959 que a maior ilha das Caraíbas é um marco incontornável para o resto do mundo.
E, precisamente 50 anos depois, a sua influência - apesar de diminuta - não desapareceu de todo.
Muitos de nós crescemos influenciados pela Revolução cubana, pelas façanhas e desventuras dos seus protagonistas.
Para alguns, a Revolução cubana significa uma história de heroísmo, de luta pela liberdade e contra o imperialismo.
Para outros, é justamente o contrário: um símbolo de ditadura e de opressão.
O que é certo é que Cuba desata paixões, e falar do que foi, do que é, e do que será a Revolução de Fidel Castro acaba por ser um verdadeiro desafio.
BBB ÁFRICA - dzembro de 2008

CHINA - O preço do milagre econômico

O preço do milagre econômico

Quem vive nas grandes cidades chinesas sabe as conseqüências do crescimento sem preocupação com o ambiente. Conheça a experiência de uma brasileira moradora de Pequim

Texto: Patrícia Bolsoy

Há um ano e meio, desembarquei em Pequim. Naquele momento, tive a sensação de estar no meio de uma cidade devastada, cercada de poeira e lixo por toda parte. As obras de reestruturação da capital, visando aos Jogos Olímpicos, puseram abaixo quarteirões inteiros. Aos poucos, antigas vielas e cortiços deram espaço a suntuosos arranha-céus e modernos centros comerciais. Mais de um milhão de pessoas foram desalojadas em prol do progresso. Trinta bilhões de dólares foram investidos em obras anunciadas como ecologicamente corretas, no intuito de fazer uma olimpíada verde – com prioridade para a proteção do meio ambiente, do povo e da tecnologia, como anunciava o governo. Mas, apesar dos esforços, Pequim está longe de ser uma cidade “verde”. De fato, a capital figura em 28º lugar em uma lista de 113 cidades mais poluídas do país.

Apesar disso, desde que a cidade foi escolhida como sede dos Jogos Olímpicos de 2008, o governo chinês esforça-se por melhorar a imagem frente à comunidade internacional. Não é uma tarefa fácil para o país, que já é considerado o maior emissor de gases do aquecimento global do planeta. Com uma economia em crescimento, que exigiu o aumento na produção de cimento e matriz energética baseada no carvão, a China superou os Estados Unidos em números absolutos de emissões – embora, na média per capta, o estilo de vida de um cidadão dos Estados Unidos gere entre cinco e seis vezes mais gases poluentes do que o de um chinês.

Faxina durante os Jogos

A maior parte dos 17 milhões de moradores de Pequim já se acostumou com a névoa acinzentada que cobre a cidade. Em conseqüência da poluição do ar, nos dias mais problemáticos, somos obrigados a usar máscaras protetoras para aliviar o desconforto das vias aéreas e evitar doenças respiratórias. Garanto que não é agradável, principalmente entre março e maio, época das tempestades de areia vindas do deserto, quando a situação se agrava e o céu fica amarelado e nublado e o ar irrespirável.

Algumas medidas estão sendo adotadas para reverter a situação. Mais de 700 fábricas poluidoras de Pequim foram fechadas e outras 200 transferidas para regiões mais afastadas. A produtora de aço Shougang Steel, maior poluidora da capital, deverá ser removida dos arredores por volta de 2010. O governo também anunciou que vai obrigar as empresas que têm ações na bolsa a se submeter a um “relatório verde” junto com o balanço anual. O documento vai registrar o desempenho dessas empresas e mostrar se elas cumpriram as metas de sustentabilidade.

Outro desafio é reeducar a população para reduzir o montante total de lixo doméstico. O programa “Menos lixos, taxas mais baixas” não emplacou, assim como o velho hábito de “cuspir no chão” – uma tradição entre os chineses – está longe de ser erradicado. Só na capital, 16 mil toneladas de lixo são despejadas diariamente no ambiente, sendo 90% estocado em aterros sanitários nos arredores da cidade. A previsão é que, durante os 17 dias dos Jogos Olímpicos, sejam produzidos resíduos equivalentes a um dia do total da capital.

Entre os programas sociais de emergência adotados pelo governo chinês, está a redução das tarifas de ônibus e metrô, interrupção “parcial” das indústrias de carvão, proibição de fumo em áreas fechadas e locais de competição, interrupção de todas as obras durante o período dos Jogos e proibição do uso de sacolas plásticas em mercados (o país consome 3 bilhões de sacolas plásticas por dia, sendo 80% descartadas no ambiente).

E no restante da China...

Os problemas ambientais chineses, no entanto, se estendem para muito além de Pequim. Linfen, na província de Shanxi, e Tianying, em Anhui, são consideradas duas das três mais poluídas cidades do planeta segundo o Instituto Blacksmith, organização não-governamental que faz esse ranking todo ano. Shanxi, na região norte, abriga a maior parte das minas de carvão, responsáveis por dois terços da energia do país. As condições de trabalho são péssimas – ali, em dezembro de 2007, 120 mineiros morreram por causa da explosão de gás em uma das minas. E as concentrações de poeira, monóxido de carbono e outros gases poluentes são responsáveis pelos altos índices de doenças pulmonares.

Tianying tem os maiores níveis de contaminação de chumbo e metais pesados, decorrentes das atividades de mineração. A província de Anhui sofre com a chuva ácida e, na cidade, os moradores adoecem com sintomas de envenenamento, principalmente crianças. Em toda a China, mas principalmente nessas províncias e em Hebei, Henan, Mongólia Interior e Shandong, prevê-se o crescimento das emissões de gás carbônico e dióxido de enxofre para os próximos anos. Como frisa Pan Yue, vice-ministro do Ministério da Proteção Ambiental, “a poluição decorrente das atividades industriais, incineração de lixo e queima de combustíveis fósseis já custa à China 10% do PIB anual”. Mais do que isso: segundo relatório do Banco Mundial, a poluição do ar mata 750 mil chineses por ano.

Não bastassem os sérios problemas enfrentados pelas grandes cidades, a população ainda convive com outra tragédia – a poluição das águas. Mais de 80% das reservas de água doce do país estão comprometidas por esgoto, lixo, mineração e expansão urbana. Na zona rural, 96% da população despeja lixo a céu aberto, 720 milhões de pessoas bebem água com dejetos industriais e não têm acesso à água potável. A proliferação de fábricas, plantações e cidades, resultado do espetacular boom econômico, está secando os principais rios chineses – o Amarelo e o Yang-Tsé.

Ainda hoje, a agricultura irrigada é responsável pela alimentação da imensa população de chineses. No entanto, essa mesma agricultura invade as últimas áreas florestais e destrói a natureza, provocando a erosão dos rios, as secas e as inundações. Com a derrubada das florestas, cresce a desertificação que, por sua vez, concorre para a diminuição das áreas de alimento, expulsando da terra milhões de “refugiados ambientais” que vão aumentar a população dos grandes centros urbanos.

O aquecimento global, por sua vez, também traz dores de cabeça para os chineses. Ao que parece, as mudanças climáticas estão acelerando o derretimento das geleiras que alimentam os principais rios, enquanto apressam o avanço dos desertos, que agora engolem mais de 300 mil hectares de pastagens por ano. Mas o maior responsável pela crise hídrica que afeta o país são os próprios chineses. A explosão econômica sem preocupação ambiental está exaurindo os rios e poluindo a água que sobra, a ponto de o Banco Mundial alertar para “as conseqüências catastróficas para as gerações futuras”.

Megaobra criticada

Com um investimento de cerca de US$ 25 bilhões, a China concluiu, em 2006, a hidrelétrica de Três Gargantas, a maior usina do mundo. Considerado um dos mais ambiciosos projetos chineses, desde a Grande Muralha, erguida durante o império, a gigantesca obra foi construída no Yang-Tsé. Desde o seu início, em 1993, ela foi alvo de críticas da comunidade internacional. Mais de 1,5 milhão de pessoas foram expulsas de suas casas e realocadas em cidades próximas à barragem. Patrimônios históricos, templos e obras de arte foram demolidos e construídos em novo local.

De acordo com especialistas, a mega-usina causou danos ecológicos e culturais irreparáveis. Segundo Ma Jung, criador da ONG Instituto de Assuntos Públicos e Meio Ambiente e autor do livro A Crise da Água na China, “a poluição da água é um pesadelo que ameaça assombrar todo o sul do país, uma vez que será transportada para o norte para suprir as necessidades da população”.

A previsão faz sentido. “Atualmente, 100% da água de Pequim é imprópria para o consumo”, afirma outro ambientalista, Liang Cong Jie, da ONG Friends of Nature. O rio Yongdinghe, o principal da capital chinesa, tem problemas, e o Baiyangdian, maior lago da cidade, encolhe cerca de 2 metros por ano. Como resultado, mais de dois terços da água potável proveniente dos lençóis freáticos estão em risco.
A falta de água ameaça estragar o passeio de muita gente durante os Jogos Olímpicos, uma vez que o consumo chegará a 2,7 milhões de metros cúbicos por dia, volume superior à capacidade da cidade. Para suprir a demanda, o governo pretende recorrer às províncias vizinhas de Shanxi e Hebei, já ameaçadas pela poluição do ar.

É provável que os visitantes de Pequim e de outras cidades, mais preocupados com os resultados das olimpíadas e a festa preparada pelos chineses, não percebam nada disso. O crescimento econômico do país impressiona e a capital – com suas grandes avenidas, arranha-céus e parques – se enfeita para os Jogos. Os problemas ambientais, bem como o enorme desequilíbrio social, resultado do milagre econômico, não estarão à vista. Resta saber se os compromissos com a sustentabilidade assumidos para a festa serão mantidos depois. De minha parte, e do restante dos moradores dessa capital, a saúde agradece. Pois, afinal, como dizem os chineses, “a casa é nova, o dinheiro suficiente, mas a água está suja e a vida é curta”.

Ameaças à vida selvagem

O maior símbolo da vida selvagem na China tem o jeito de um urso de pelúcia. O panda (Ailuropoda melanoleuca) apesar de famoso, corre o risco de extinção. Tornou-se assim o símbolo da luta pela preservação dos animais, conhecido no logotipo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF). Vários projetos de preservação do animal estão em curso. Mas o problema é que o seu território foi tomado pela agricultura, não restando muito espaço para a preservação da espécie. Os que vivem na natureza estão distribuídos em reservas, separadas entre si por vastas áreas de agricultura e pastagem.

Outros animais exclusivos da China também estão ameaçados, como o búfalo-das-montanhas (Budorcas taxicolor), da região de Qinling, muito procurado pelos caçadores. O seu hábitat também é o último refúgio do macaco-dourado (Pyganthrix roxellana), conhecido pela cor do seu pêlo. Nas florestas tropicais chinesas, resiste o gibão-de-mão-branca (Hylobater lar). Outras espécies ameaçadas são o cetáceo baiji, o boto, o crocodilo chinês e peixes como o esturjão.

Revista Horizonte Geográfico

CUBA - "Es muy complicado"


"Es muy complicado"

Dizem os cubanos quando tentam explicar a situação de seu país. Havana é a síntese do desafio de viver no século 21 aferrado a um modelo comunista

Texto: Ana Paula Souza

Se uma cidade é muitas cidades, Havana é, além disso, muitas épocas e mitos. Quando decidi conhecer a capital cubana, não podia imaginar que meus olhos iriam se flagrar, ali, tão confusos. Ainda mais agora que Fidel Castro renunciou ao poder depois de 49 anos. Embora não se possa esperar demais do seu irmão Raúl, quem sabe a próxima vez que for a Cuba encontre uma ilha diferente?

Havana é um retrato dessa ilha multifacetada. Vejo na estrada escura dois homens agachados; consertando um enorme carro no estilo dos anos 1950. Mais adiante, um outdoor conclama “Viva la Revolución” e outro estampa George W. Bush sob a frase “No al Fascismo”. Despontam a seguir edifícios suntuosos do começo do século 20 com seus balcões virados para a rua. Penso até que ponto uma reviravolta para a economia de mercado pode mudar essa aparência.


“Cuba Libre” em Havana: com o salário e a caderneta de produtos, vive-se 15 dias; depois entram em cena os CUCs, dinheiro informal
Meu hotel é da cadeia Hilton que abrigou os milionários que adoravam cassinos e hoje se chama Habana Libre. As escadas de torneados barrocos e o grande lobby mantêm os sinais da riqueza que a revolução podou. É assim, feito cartão-postal animado de meio século atrás, que a cidade se apresenta aos estrangeiros. Encantada. Guardada numa época que não conheci. E vivendo, ao mesmo tempo, o hoje.

Cristalizada essa impressão – tão verdadeira e tão falsa quanto qualquer impressão –, o melhor a fazer é caminhar para qualquer dos pontos que todos os cubanos apreciam na sua capital. O importante é andar. Ouvir. Olhar. Quem deseja perceber Cuba para além das praias para turistas de Varadero e da constatação óbvia de que o povo quase nada pode comprar, deve colocar as pernas à prova. Deixar-se perder.

Minha primeira parada foi na Plaza de la Revolución, aquela dos discursos de incontáveis horas de Fidel Castro. E agora, provavelmente, de Raúl. A construção de mármore abriga, no cume, uma estátua de José Martí (1853-1895), o poeta que condensou os ideários da Revolução Cubana. Se ficarmos ao lado de Martí, vemos, do outro lado da rua, o rosto de Che Guevara (1928-1967) esculpido em ferro e torneado pela famosa frase “Hasta la Victoria Siempre”. Fica no monumento o Memorial José Martí que, com o Museu da Revolução, erguido em outro canto da cidade, resumem a história oficial de Cuba.

Da cidade imortalizada pelo Estado em fotos, textos e obras de arte, sigo, num coco-táxi, motoneta com cobertura em forma de coco, para a cidade vivente, no Malecón, a avenida que contorna toda a cidade velha. “Quem viveu em Havana sabe que o Malecón foi (e é), como a própria cidade, muitas coisas. Não apenas o lugar do descanso, do amor, das conversas e desolações, mas também das festas, nostalgias e suicídios”, afirma o escritor Abilio Estévez em Inventario Secreto de la Habana, ao apresentar os personagens emblemáticos e anônimos de sua terra natal.


Cubanos conservam os veículos das décadas de 40 e 50 e “criam” carros com peças velhas
O Malecón é um vasto muro junto ao mar. O mesmo mar para o qual a Plaza de la Revolución dá as costas e que é a fronteira transposta pelas balsas em fuga. “O que vocês pensam? Os Estados Unidos oferecem dinheiro a quem embarca. Eles querem fazer a propaganda dos fugitivos”, explica resolutamente uma funcionária do Ministério do Turismo com quem converso. “Ah, minha amiga, es muy complicado. É tanta proibição, tanta mentira, que é difícil um jovem não imaginar que, além do mar, pode ter alguma coisa melhor à sua espera”, contrapõe, lírico, um vendedor de livros chamado Jose Carlos, quando pergunto sobre os destinos da revolução.

Foi depois de percorrer o Malecón que o encontrei. Jose Carlos tem uma banca na feira de livros ao lado do Castillo de la Real Fuerza, em Habana Vieja. Não sei exatamente por que, ao ver volumes de Che, os Cadernos de Notas, de Martí, Nosso Homem em Havana, de Grahan Greene, e os álbuns de fotos de Alberto Corda, peço Havana para um Infante Defunto, de Gillermo Cabrera Infante, notório inimigo do ex-ditador.

Um livreiro negro, aparência de 60 e tantos anos, olhos rudes e voz grave do fumo de uma vida diz, com o cenho franzido, não possuir o livro. De repente – e aí Freud diria que meu pedido foi estripulia do inconsciente – me dou conta do absurdo do pedido e cometo outra gafe. “Ah! É proibido, não?” O velho livreiro nega, irritado. Jose Carlos intervém e, além de dizer que o livro é, sim, proibido, me consegue um exemplar.

Jose Carlos, economista por formação e leitor por paixão, soa como a consciência crítica de Cuba. Ele jamais pensou em deixar a ilha, mas se sente enredado pela burocracia e enganado pelo Estado. Falou claramente sobre a transmissão de poder de Fidel para o irmão Raúl: “Mudarão para que fique tudo igual”, filosofa.
E acrescenta: “O Estado cria regras e os mecanismos para descumpri-las surgem na mesma velocidade. Com o salário oficial e a caderneta de produtos que recebemos vivemos 15 dias. E no resto do mês?. Nos viramos com os CUCs. Es muy complicado, amiga, es muy complicado”.

Para os turistas, a moeda são os CUCs. Mas esse dinheiro é, em tese, apenas um conversor. É como se, no Brasil, a URV, criada em 1994 para a implantação do Plano Real, tivesse virado dinheiro – em papel. Com os CUCs compra-se tudo, de picolé na rua a Coca-Cola no hotel. É com esse dinheiro que os cubanos se viram nos tais outros 15 dias do mês.

Como conseguir os CUCs? Es muy complicado. Os taxistas desligam o taxímetro, controlado pelo Estado, e cobram por fora. As camareiras do hotel oferecem desconto no serviço de quarto para quem paga direto para elas. O ex-lutador de boxe que guia uma bicicleta-táxi leva o cliente a um restaurante residencial. Todos, ao encontrar um turista, explicam brevemente a situação e, de quebra, pedem uma “propina”.

Mas, se não houver propina, não há problema. Francos e fanfarrões, os habaneros estão sempre dispostos a um dedo de prosa. Enquanto os turistas miram os monumentos, eles miram os olhos do interlocutor. Transpiram uma sensualidade serena que tem a ver com os trópicos, com os corpos de quem trabalha muito e ganha pouco, mas se diverte com o sorriso fácil.


A renúncia de Fidel e sua substituição pelo irmão Raúl não afetou o dia-a-dia dos cidadãos da cidade parada no tempo
Vem do caráter do povo, da franqueza que pode parecer excessiva, a atmosfera alegre que nem os conhecidos problemas eliminam. “Esta gente é exagerada como poucos”, dizia o poeta Federico García Lorca em carta de 1930. Os tempos mudaram e o embargo econômico endureceu a vida e deixou velhas as casas. Mas o espírito parece ter continuado imbatível. “Somos como as baratas”, comparou o guia de uma viagem para o vale de Viñales, interior de ilha, terra onde o tabaco floresce. “Querem nos matar, mas somos resistentes.” O homem aproveita a bela paisagem – com contornos que fazem lembrar a Chapada Diamantina – para defender a revolução. “Vocês estão vendo esta terra? Antes da revolução, isso tudo era dos americanos. Quatro empresas dos Estados Unidos tinham 70% da ilha.”

O viés político da conversa estimula um estrangeiro a fazer perguntas sobre as mudanças políticas. A renúncia de Fidel parece ter pego a todos de surpresa, embora sua doença fosse conhecida. “Ele não está bem de cabeça, mas não sai tão cedo”, imaginava o taxista formado em biologia com quem puxei conversa. A mudança, no entanto, parece não afetar a confiança no regime e o orgulho e dignidade das pessoas com quem conversei.
Essa dignidade é ressaltada, por exemplo, na ausência de servilismo. Garçons, motoristas de todos os transportes – das improvisadas bicicletas aos táxis novos que o Estado comprou – e cantores que embalam jantares com Guantanamera proseiam com o visitante tal qual com um amigo. O nome disso talvez seja “senso de igualdade”.

Essa dignidade também reverbera nas críticas ao regime, na ironia que imprimem às próprias agruras. “A burocracia parece ficção. Você acredita que é o Estado quem diz quantas pessoas cabem na minha casa? Na minha, são três pessoas e meia. Vou dividir minha filha ao meio”, provoca Jose Carlos.
Esses detalhes da vida cotidiana não são visíveis para quem vem de fora. Dá apenas para intui-los: pelas frestas das persianas das casas com o sol a pino; pelas ruas de nomes revolucionários, como Salvador Allende e Simon Bolívar, mas que o povo chama de Carlos III ou Reina Isabel II; pelos relatos sobre os apagões que enegreciam a cidade nos anos 90.

Havana ainda guarda a aura que grandes narradores do século 20, como Hemingway e Graham Greene, ajudaram a criar entre copos de mojitos e daiquiris. “Vivo agora num palácio encantado. Toda minha tristeza e apreensão desapareceram mal vi Havana”, escreveu Anaïs Nin no diário de 1922.
Os anos mudaram e os escritores também. “Cidade que vista de longe parece que até existe, cidade que é uma prisão candente”, descreve Reinaldo Arenas, em Otra Vez el Mar. Havana resiste a ser explicada. Por isso, é a cidade de Arenas e muitas mais.

Para as brasileiras que encontrei no avião russo, dos anos 50, que me levou a Cayo Largo – uma linda ilha no meio do Caribe – Cuba se assemelha ao discurso da mídia brasileira. “O povo tem tanto medo de falar, né?” Para o jovem americano que encontro no aeroporto – “Estou aqui sem a ordem do meu país!” – é o espelho no qual se refletem as distorções do capitalismo. Para a figura que passou as férias deixando crescer a barba para se assemelhar a Fidel, deve ser símbolo de sonhos juvenis. Para a mãe, cujo filho morreu na travessia da balsa, é encarnação da tristeza.

Para mim, ficará guardada como o ruído do mar que se ouve à noite, à beira do Malecón, quando a música vibrante que embala a cidade silencia. Ficará guardada como a mistura de sonho e desalento estampada nos olhos dos habaneros de roupas coloridas que fumam um charuto à varanda, jogam dominó e vêem o tempo passar. Com ou sem Fidel, têm de seguir a vida. E até parecem saber que o mundo os olha. De novo.


Os desafios da Revolução Cubana

A sobrevivência da única nação comunista das Américas, situada a apenas 170 quilômetros da costa dos Estados Unidos, é uma proeza que surpreende a todos os estudiosos da política. Há 49 anos, rebeldes liderados por Fidel Castro, tomaram o poder em Cuba, promoveram a reforma agrária, nacionalizaram empresas e fuzilaram os colaboradores da ditadura anterior de Fulgencio Batista (1901-1973). Desde aquela época, Fidel deteve o poder com mão de ferro e sem admitir qualquer tipo de oposição. Isso até fevereiro de 2008, quando o ditador renunciou ao poder, depois de um ano em que, por problemas de saúde, foi substituído por seu irmão Raúl, agora oficialmente o novo presidente de Cuba.

Durante esse tempo, houve inúmeras tentativas de derrubar Castro do poder por parte de exilados cubanos em Miami e como resultado da Guerra Fria que colocou em pólos opostos Estados Unidos e a ex-União Soviética.
O bloqueio comercial, imposto pelos americanos em 1962, e ainda em vigor, também trouxe conseqüências sérias para a economia do país. E aumentou a resistência de Castro a mudanças e a dependência dos soviéticos, que vigorou até 1993. Com a rápida transição russa para o capitalismo, Cuba foi deixada a sua própria sorte.

Para enfrentar os novos tempos, o governo promoveu reformas comerciais (autorização do trabalho autônomo, mercados livres na agricultura, legalização do dólar, criação de empresas de economia mista, incentivo ao turismo etc.), que permitiram uma retomada do crescimento, ainda que pequena. Entretanto, as medidas provocaram distorções sociais e o impasse diantes dos valores inculcados pela revolução, favorecendo, por exemplo, a distância entre a renda dos que têm dólares e a dos que não têm acesso a eles. O futuro ainda é imprevisível.

Exclusivo On-line

Veja mais imagens de Cuba fotografada por Alvaro Vilela










Revista Horizonte Geográfico

CUBA SEM FIDEL


19/ 02/ 2008 - CUBA SEM FIDEL

O início do fim

José Flávio Sombra
PhD pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

O gesto de renúncia do líder cubano Fidel Castro, depois de quase meio século no poder, não é isolado e solitário. É gesto calculado e compõe moldura mais ampla das transformações mais abrangentes que ocorrem naquele país caribenho. Corresponde ao movimento desencadeado há quase dois anos, quando de sua licença por motivos médicos. Inicia-se uma transição: do fim do regime político que emergiu no contexto da Guerra Fria para uma nova tessitura política de adaptação ao mundo no qual vivemos.

A renúncia tem significado relevante e não pode ser classificada apenas como ato cosmético ou pantomímico. Em primeiro lugar, tem impacto na vida dos cubanos que habitam a ilha. Fidel é líder carismático, apesar dos reparos que muitos cubanos podem fazer ao papel de liderança vertical imposta pela Revolução Cubana. Sua saída formal da gestão do Estado foi, aos milímetros, calculada para não matar o totem, mantendo-o como força espiritual de uma transição espinhosa que se avizinha.

A transição de regime fica refém do líder carismático e do grupo político que a maneja, na lógica da mudança de dentro para fora, igualmente pacífica e adaptativa aos novos tempos. Há uma liderança jovem, de funcionários do Estado e das empresas públicas cubanas, que percorreram o mundo nos últimos anos e acompanham as transformações globais. Sabem que não há sobrevivência econômica do regime atual sem aggiornamento político. É em favor dessas lideranças, fiéis a Fidel e criadas nas últimas décadas do regime, que a transição se fará. E na migração de poder político carismático para o estamento burocrático, a figura de Fidel segue tendo um peso expressivo na balança.

Em segundo lugar, há sinalização valiosa da renúncia para o vizinho complicado, os Estados Unidos. Indica Fidel às lideranças de Washington que a transição deverá ser conduzida com capacidade decisória nacional, sem intervenções ou defecções políticas que contaminem as relações Cuba-Estados Unidos além do nível que elas já alcançaram em outros tempos.

A maneira em torno da qual o cronograma de transferência gradual do poder se faz em Cuba sugere a máxima geiseliana da transição gradual. É também forma de administrar, em parte, os contenciosos com os Estados Unidos. É deixar claro ao gigante que o pequeno não quer desafio à sua soberania e à sua capacidade de conduzir, a bom termo, não apenas a transição de agora, mas seu próprio futuro como nação adaptada ao século 21. Reconcilia-se, assim, o ideário romântico e nacionalista cubano, um vetor histórico da ilha, mesmo antes da Revolução Cubana, com os desafios do futuro da cooperação necessária com os Estados Unidos.

Para completar o quadro, o gesto realiza-se no momento da elucidação dos pontos de vista dos candidatos às prévias republicanas e democratas na luta pela Casa Branca. Sugere Fidel ao futuro vencedor da contenda nos Estados Unidos, e para seu eleitorado, que há uma possibilidade de avançar agenda mais cooperativa, desde que o embargo seja reconsiderado.

Em terceiro lugar, e finalmente, há uma forte sinalização para a sociedade internacional no gesto do longevo líder cubano. No início do novo século, no qual uma revolução subterrânea encerrou, em parte, os sonhos solidários do século 20 (do qual o socialismo fez parte, no leque de proposições filosóficas, políticas e econômicas), Fidel rende-se à necessidade de maior adaptação às regras do jogo internacional e à economia política da globalização.

Normalizar relações com a comunidade internacional, sair do isolamento auto-imposto pelas circunstâncias duras da Guerra Fria, avançar uma agenda no campo da liberalização política, encaminhar melhor o espinhoso tema dos direitos humanos, aceitar melhor as polarizações políticas legítimas internas, são aspectos da nova agenda internacional de Cuba. A nova diplomacia cubana, mais jovem e encarnada em rósea idéia de revisão dos velhos paradigmas, confere esperança à transição que se inicia nos dias de hoje na ilha caribenha.

Acompanhar a transição cubana nos próximos tempos é exercício de futurologia incerto. Mas certas verdades já se fazem notar: os ganhos sociais e cidadãos acumulados não serão jogados na lixeira da história, mas redesenhados na forma da inclusão da ilha no sistema democrático moderno, na sociedade global, mas a manter o patrimônio do “ser cubano”. Este “ser”, ao explicitar forma de agir e desafiar o grande, tem todas as condições de ser recriado na ilha não mais apenas de Fidel.
http://www.secom.unb.br/artigos/at0208-02.htm

A abertura econômica cubana




A abertura econômica cubana

carlos pio
professor de Economia Política Internacional, no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). É mestre e doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).

Cuba é um país pequeno se analisarmos, por exemplo, suas dimensões geográfica, populacional e econômica. Tem área de 111 mil km² (um pouco maior do que Pernambuco), população de 12 milhões de pessoas (inferior à da Bahia) e PIB de US$ 46 bilhões (4,3% do PIB brasileiro, metade do PIB do Paraná). No entanto, na política internacional, Cuba é gigantesca. Desde que o regime inaugurado por Fidel Castro e Che Guevara alinhou-se à União Soviética no auge da Guerra Fria, seu modelo tem sido capaz de mobilizar forte debate entre socialistas, liberais e social-democratas. Os principais aspectos do debate são: a impossibilidade prática de o Estado garantir a todos os cidadãos graus plenos de liberdade político-econômica e de igualdade de renda; e o mix desejável entre esses dois elementos na definição das regras e das políticas governamentais.

Desde que caiu o Muro de Berlim (1989) e foi extinta a União Soviética (1991), o modelo socialista cubano perdeu as bases de sua legitimidade política e viabilidade econômica. Com o socialismo mundial, também morreu parte importante do apelo exercido pelos ideais de Fidel e Che sobre intelectuais e políticos latino-americanos e brasileiros. Hoje, reconhece-se facilmente que o regime cubano é anacrônico e perverso. Por isso, desde o início da Revolução saíram de Cuba mais de 900 mil pessoas, e não há registro de grandes fluxos de pobres, militantes, políticos ou intelectuais comunistas demandando vistos de entrada para desfrutar das maravilhas proclamadas pela retórica oficial.

Qual o destino de Cuba, agora que parece claro que Fidel não mais retornará ao poder? Uma provável abertura econômica apresenta oportunidades reais para empresas brasileiras que investirem em Cuba? Que papel deve desempenhar o nosso governo ao longo da dupla transição que se espera para os próximos meses e anos (do socialismo para o capitalismo e da ditadura para a democracia)?

O destino de Cuba será construído pela interação entre: os movimentos sociais internos espontâneos – formados em torno de demandas por mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais mais profundas e mais rápidas –; as principais lideranças do novo governo comandado por Raúl Castro e um grupo de jovens conselheiros pragmáticos e reformistas escolhidos por Fidel e já instalados em posições-chaves no Estado; as organizações anticastristas estabelecidas nos Estados Unidos – que se têm tornado mais moderadas em razão da emergência de novas lideranças nascida nos Estados Unidos –; e o governo (e o Congresso) dos Estados Unidos.

Desse intrincado jogo de interesses e forças, emergirá uma nova Cuba. Se mais parecida com a República Tcheca e o Chile – casos exitosos de transição –, ou com a Moldóvia e a Nicarágua – fracassados –, só o tempo dirá. Esse é um processo definido pelo jogo político, mas que não será controlado por nenhum ator ou grupo em particular. Cabe-nos, diante desse quadro, indagar sobre os riscos e as oportunidades para as empresas brasileiras, e sobre o papel mais aconselhável a ser desempenhado por nosso governo.

Em relação às empresas privadas, recomenda-se avaliação realista e suficientemente dinâmica do potencial econômico da nova Cuba. Quais são os setores mais atraentes da pequena economia cubana? Como seus principais concorrentes globais/regionais estão se posicionando em relação à abertura econômica do país? Quais são os riscos econômicos e políticos potenciais de investir em Cuba? Para responder a essas questões, será preciso observar atentamente o desenrolar dos acontecimentos políticos que vão fundar o novo país. De todo modo, é bom ter em mente que a economia cubana é demasiado pequena para representar grande oportunidade de negócios para a maior parte das empresas brasileiras, multinacionais ou meramente exportadoras.

Já o governo brasileiro precisa olhar com mais realismo para o que está acontecendo em Cuba. A saúde de Fidel não está “impecável”, como disse o presidente Lula em sua recente visita ao país. Cuba não é uma democracia, como ele nos afirmou não muitos meses atrás. Não há alternativa sustentável para o futuro de Cuba fora do modelo capitalista-democrático ocidental, por mais que isso venha a afrontar a visão idealizada dos petistas e esquerdistas incrustados em todos os escalões do governo brasileiro. E, por mais que isso pareça perverso do ponto de vista humanitário, é preciso avaliar as oportunidades de investimento a serem feitos com recursos públicos brasileiros – por exemplo, pela Petrobras e pelo BNDES –, levando em conta os riscos e as incertezas do processo de transição política e econômica que ocorrerá nos próximos anos.

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